SEXTA-FEIRA, 09 DE AGOSTO DE 2013.

Vergonha. Foi esse o sentimento que senti hoje. Tinha saído do trabalho lépida e faceira por ser meu primeiro dia de férias, quando fui abordada por um rapaz. Suas roupas esfarrapadas e sujas me fizeram o julgar assim, à primeira vista. Sem querer, dei um passo para trás. Não era intenção, mas foi uma ação instintiva.

– Moça, não se preocupe, eu não sou ladrão – foi o que ele me disse. Senti vergonha por ter agido com um pré-conceito. A maioria das pessoas age assim quando vê alguém fora das condições aceitas pela sociedade.

Não acredito que ele fosse um ladrão ou tivesse qualquer intenção de me fazer mal. Pessoas assim como ele são invisíveis aos olhos dos outros. Eu olhei para ele e seus olhos eram tristes, de alguém que não estava pedindo dinheiro por apenas querer, mas que fazia porque era uma necessidade. Sensibilizei-me com seu olhar e com aquelas oito palavras. Dei a ele todas as moedas que tinha na carteira, no momento era o que eu tinha.

Temos o hábito de pré-julgar sem conhecer as pessoas e suas agruras. Talvez por influência do livro que estou lendo, O olho da rua, da jornalista Eliane Brum – que conta histórias de pessoas anônimas e invisíveis – tive vontade de conhecer a história dele, o motivo de estar ali pedindo algumas moedas, dependendo da bondade alheia. Mas fui covarde. Para alguns terei sido sensata.

É, realmente precisamos estar prevenidos, pois nem todos tem a maldade estampada na cara. Porém muitos também estão nesta mesma situação por não terem uma oportunidade na vida. Muitas vezes não é uma escolha, mas sim a única opção.

Quantas vezes olhamos para essas pessoas nas ruas e não as notamos? Olhamos mas não vemos. Um dia desses falando com uma amiga sobre qualquer coisa, disse a ela: “Olha pra ti ver”, ela ainda brincou com a redundância de minha frase. Mas agora pensando, acho que há uma diferença entre olhar e ver. Olhamos tudo ao nosso redor, mas ver, prestar atenção de verdade não é sempre. Nosso olhar é seletivo, vemos aquilo que queremos.

Tenho certeza que, naqueles rápidos instantes, o sentimento de vergonha foi compartilhado por nós dois: eu, por ofendê-lo com meu julgamento instantâneo; ele, por estar ali sendo tachado de ladrão. Segundos depois nossas vidas separam-se novamente e eu segui fisicamente intocada, mas emocionalmente abalada.